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 PENUMBRA Saga Alvura e Trevas - Capitulo Sexto

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AutorMensagem
Jorge Nunes
Chegando a Forks
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Idade : 27
Número de Mensagens : 9
Data de inscrição : 07/01/2010
Localização : porto, portugal

MensagemAssunto: PENUMBRA Saga Alvura e Trevas - Capitulo Sexto   Ter 15 Nov 2011, 14:23

Capitulo Sexto

Contos e mitos


Estava escuro como breu quando entrei em casa. Até ali tudo parecia perfeito, ou talvez não, pois não havia dúvidas de que tinha abusado da sorte, e agora a fantasia terminara.
Mal entrei, vi surpreendido que as luzes, com um tom amarelado muito ofuscante, estavam acesas. Andando sob a ponta dos pés, comecei a subir as escadas que iriam dar aceso ao meu quarto. Os olhos da minha madrinha permaneciam impacientes e rígidos como se eu tivesse cometido um crime ou algo do género.
Baixou o olhar e ficou quieta. A maneira como ali permanecia estava a incomodar-me e deveria expressar o querer de uma explicação. - Porque não avisas-te Daniel?
- Está muito zangada? Eu não fiz de propósito – Baixei o olhar e o tom de voz. Ela apenas acenou com a cabeça, olhando fixamente para mim, tendo um sorriso tímido no rosto, onde uns graciosos olhos verdes brilhavam e percorriam o corredor para além de mim, até à porta.
Aquilo sugeria-me desconfiança, e a minha madrinha virou costas, quase parecendo que não me estaria a ver ali.
- Não voltará a acontecer – Prometi-lhe.
Então ela virou-se, olhou-me ternamente, com um olhar meigo a desaparecer juntamente com ela, como se fosse uma miragem.
Era um sonho.
Acordara quase sobressaltado e a suar, olhando em redor, o quarto escuro e silencioso. A causa de tal sonho, não parecia ser importante, ou melhor, o aspecto que ali coincidia seria, que eu estava de consciência pesada por algo que não deveria ter feito, numa casa estranha e numa família que não era minha. Sabia que no dia seguinte tudo mudaria, para melhor.

Decididamente a noite não fora boa, não pregara olho após o pesadelo. A falta de barulho ou tipo de som deixava-me confuso em relação à situação do dia, ou falta dele, porque o meu quarto permanecia fechado e escuro. Escondi-me nos lençóis machos e convidativos a uma boa hora de sono repousante, mas no momento seguinte o despertador tocou, marcando as oito horas a que teria de responder para não chegar atrasado.
Eu não o desejava. Não me apetecia chegar antes de Sally, mas a ansiedade era tão grande que me limitei a ir para lá a pé, para ter tempo suficiente de chegar bem perto do toque de entrada.
Havia sol por toda a parte, o que tornava aquela manhã absolutamente encantadora, com os ramos das árvores a dançarem com o vento ligeiro.
O caminhar dos meus ténis fazia um barulho estridente, parecendo demasiado alto para quem passava e olhava de má cara para mim. Seria bastante melhor trazer a bicicleta que era silenciosa e bem mais rápida; estava com tanta vontade de estar com Sally, que até o próprio vento parecia querer que eu andasse devagar, vindo de vez em quando uma rajada forte que fazia com que parasse.
Não foi propriamente rápido chegar à escola, e com toda a pressa que tinha, até pareceu bastante rápido para alguém que nunca tinha ido a pé para tal lugar.
À medida que me aproximava do portão, cheio de gente, a minha respiração parecia aumentar a cada passo que dava, dando-me tonturas e dores de peito. Tinha as mãos a tremer e decidi mete-las nos bolsos para que não se notasse tanto o meu grau de nervosismo.
O corredor principal mostrava-se para já vazio e bastante quente, o que ajudou a que eu relaxasse um pouco. Depois avancei e passei pelos cacifos nojentos e com desenhos de grafitis a inundarem todos os bocados de chapa que parecia envelhecida.
Senti-me melhor à medida que me aproximava da sala da próxima aula, informática e computorização. Entrei calmamente e deparei-me com uma sala bastante maior que as do dia anterior. No entanto, completamente cheia de armários a abarrotar de esculturas no seu interior.
A campainha pareceu demasiado aguda quando soou, provocando arrepios nos braços e fazendo-me cerrar o maxilar para me concentrar no quanto queria que aquilo passasse.
- Daniel, Daniel! - Ouvi uma voz aflita chamar por mim e virei o olhar para o lado, observando que Anna se dirigia para mim quase de modo acidental. Por pouco não caiu ao chegar perto de mim.
- Olá Anna – Suspirei e mantive uma posição de quem está muito atento – O que se passa?
O aparelho metálico apareceu, resplandecente como me lembrava dele. Não aquilo não era um sonho...
- Viste a Sally? - Questionei olhando para a porta da sala preocupadamente.
- Sempre a amiguinha loirinha – Sussurrou, tentando fazê-lo sem que eu desse por isso. No mesmo instante fingi não ter ouvido, ao que me tornei sério.
- Não sei – Disse com amargura – Queres ir dar uma volta por aí? Reparei nos olhos dela e fiz-lhe um olhar de pura insatisfação.
- Não posso. Ainda tenho que ver aqui o material para esta aula. É um pouco complicado.
Ela virou a cabeça para mim sem no entanto nos olharmos, e assim acenou afirmativamente para no momento seguinte se dirigir ao seu lugar e não mais me olhar. Decerto este seria o último encontro verbal que teria com ela, embora soubesse que ela estaria a sofrer em silêncio, tão perto, e iria ser assim daqui em diante. Depois ainda a olhei, não conseguindo saber se estava bem e o que estava a sentir – Tão perto que estava depois, por ali, nos corredores do liceu.
O seu cabelo negro estava delicadamente penteado para trás e parecia mais longo do que quando a conhecera. Todavia, eu não me esforçava para dar mais ênfase àquela situação, senão à presença próxima de Sally, logo após a aula que parecia nunca mais começar.
Estava em pulgas para o toque de saída, e eu parecia estar num reino de felicidade eterna. Além da mentira que contara a Anna, o essencial de todo o "teatro" que fizera, tinha uma única explicação - Sally.

Tentei convencer-me que com o tempo todo aquele amuar dela passaria, não esperando que ela me odiasse para toda a vida, de modo a voltar a ver o seu sorriso. Os meus colegas foram entrando e, o rapaz a quem eu ajudara, parecia satisfeito nessa manhã, sem a companhia desagradável da sua "carraça mor" por ali perto. Eu via nele uma preocupação, mas não seria com certeza por causa deste último, mas por outra coisa.
Reparei no seu semblante alguma fúria, mas fiquei aliviado por momentos depois, a sua expressão voltar ao normal.
A situação de espera tornou-se menos desagradável quando um homem bastante novo, com uma camisola azul e umas calças de ganha, na moda, irrompeu pela sala para se chegar ao lado da secretaria, onde pousou a pasta que trazia, aparentemente parecida com uma mala de PC.
O sol escondeu-se um pouco atrás de duas nuvens teimosas que a meu ver, pareciam querer tirar toda a alegria que aquele dia trazia. Os arbustos em redor da rede metálica que separava os limites da escola, da estrada, estavam sempre a mover-se violentamente, e pouco depois, umas gotas minúsculas começaram a fazer com que o chão de cimento parecesse um dálmata às pintas.
A chuva, no entanto, não parecia tão eminente como fora nos dias que se antecederam.
Detive-me por momentos, adiando o desgosto por aquela água toda me vir a molhar os livros e a roupa que decididamente estava destinada a virar um monte de humidade abundante. Um sentimento de tristeza pareceu invadir a minha ansiedade.
Os meus receios agravaram-se quando a aula tomava o rumo de trabalhos de computador, quando o professor Dinonn, um nome um tanto ou nada estranho, nos começou a explicar as funcionalidades de um programa novo de edição de imagens. No entanto, apenas abordou o assunto inicial, em que, eu já me tinha habituado por causa de uma experiência feita em casa.
Quando a campainha deu sinal para a saída eu permanecia envolto nos meus pensamentos acerca de Anna. Quanto possível, tentaria manter a minha dignidade, para depois me dirigir a ela e tentar pedir-lhe desculpas, porque a final de contas, a culpa era inteiramente da minha responsabilidade, bastante vulnerável quando queria fazer as coisas bem feitas.
- Não precisamos de estar assim – Disse-lhe tentando manter-me dócil mas palavras e na expressão da minha cara demasiado carrancuda para o momento.
Não me olhou. Virava as páginas do caderno, acelerando cada vez mais à medida que o tempo passava. Daí a pouco apenas parecia ver uma página e não várias, tal era a velocidade. Quando se levantou, eu mantinha-me um pouco distante, não fosse o diabo tece-las e eu levar um estalo ou algo do género. Mas, subitamente, ela pareceu reconhecer o meu pedido, sincero, de desculpas, ao ponto de olhar fixamente para mim, com o mesmo olhar, compenetrado e entusiasmado com sua a tinha conhecido.
Toda a raiva, ou fosse qualquer outra coisa, tinha passado.
- Que idade tens Daniel Foller? - Fiquei admirado com a formalidade da pergunta, e fiquei engasgado nas palavras a responder.
- Ah... Dezoito, porquê?
Não consegui perceber bem tal questão. Ela arrumava tudo e ficou de pé, mesmo após todos terem saído, incluindo o professor.
Era permitido ficar na sala durante os intervalos, e a razão para tal... Muito simples: trabalhos em computador, e estava na altura de os começar a fazer, o que ainda não era acontecia na minha turma.
- Conheces Capara?
Apercebi-me de que provavelmente estava a falar de algo sobre cidades, o que não era o meu forte. A minha biblioteca cultural cingia-se apenas a música e pouco mais.
- Não penso que conheça essa cidade – Respondi, um pouco envergonhado. Anna lançou-me um olhar de surpresa, que iria para além dos meus olhos. Bem lá no fundo, ela estava a relembrar-se de algo, e, eu parecia o espelho das memórias, ou melhor, os meus olhos.
- Então... Mas vais à visita de estudo na próxima semana? O sítio que vamos visitar é bastante emocionante e assustador.
- Não me parece que ir a uma catedral, velha e a cheirar a mofo dos zombies que por lá enterraram, seja propriamente "apelativo". - Fiz sinal com os dedos em sinal de aspas e a minha cara fez uma careta para mostrar o desagrado
- Não vejo que seja proveitoso a qualquer sentido de conhecimento.
Ela sentou-se com rapidez e vi que estava completamente entusiasmada com algo que talvez dissera.
- Boa, finalmente alguém me compreende! Uma oportunidade...
A sua face ganhou vincos leves nas bordas dos lábios, sabendo eu que se preparava para um sorriso aberto. Depois ela abriu o livro antigo, com letras douradas e a capa, velha e gasta a desfazer-se, num tom azul-escuro muito carregado.

Abriu-o mesmo no meio onde tinha uma marca com tinta uma marca com tinta de caneta preta, e mostrou-me a imagem de um edifício com duas torres, vários vidros e um grande portal. Certamente que era uma igreja.
- Uma... Igreja? Porque queres que veja isto?
- Primeiro, isto não é uma igreja - Parou para percorrer com os dedos a imagem, algo envelhecida num monte de letras em redor - É uma catedral.
Ri-me baixinho com certeza de que aquela imagem era tolerante irrealista. Afinal onde é que uma catedral podia estar em plena cidade como aquela? Tudo à volta era tão...desenvolvido.
- Percebo... - Disse com um tom de sarcasmo.
- Não gozes, isto não tem piada. Bem...voltando ao assunto, existem guardas, como hei-de explicar... "mitos", pode ser a expressão adequada à situação acerca desta catedral.
- Oh, a sério? E agora vais contar que esta espelunca agrega histórias de mortos-vivos e guardiães furiosos que matavam quem se atrevesse a assaltar a catedral! Por favor Anna, já não acredito em histórias de terror desde os seis anos.
Após tal visão do assunto, ouvi um pequeno murmurar zangado e um ar rouco a sair da garganta daquela minha amiga.
- Vais à visita? - Questionou de uma maneira rude com os maxilares a contraírem-se.
- Depende... Afinal o que é que esta catedral tem de tão manipulador e terrorífico? Não vejo aí nada de especial.
Peguei no livro e virei a página à procura de algo sinceramente mais importante.
- Ouvi dizer e li aí a confirmação – Esperou para se acalmar um pouco – Parece que existem criaturas da noite, nestas colunas de pedra que vês aqui.
Notei imediatamente numa coisa que saltou à vista. Era uma estátua, de um morcego ou algo parecido, agachado e ao corpo metade humano, metade besta, em que os seus longos e musculados braços seguravam a cabeça de...Um homem. Estava em agonia e a figura ria-se com os olhos arregalados e sobressaídos.
- Genial – Confessei com o meu sangue a correr-me nas veias a alta velocidade. Aquilo dava-me alguma adrenalina de ir ver a tal catedral.
- O que podes dizer mais sobre estas estátuas?
Estranhamente aquela figura quase humana, que, quase reconheci alguém nela. Porém não sabia quem seria, até porque a pedra estava gasta e com buracos ao longo da mesma.
- Hum - Consentiu ela, ficando a olhar para a imagem - Interessante.
Olhara-a detalhadamente. Permaneceu imóvel a quase tentar entrar dentro da imagem, como se aquele corpo permanecesse ali, à espera de retirar a alma daquele morto-vivo.
- É só isso? Apenas um "Hum"? Boa, grande ajuda!
- Espera – Pediu agarrando-me com simplicidade - ainda não acabei.
- E então? - A minha voz parecia demasiado impaciente. Estaria a mostrar uma pessoa extremamente ridícula? Ou era apenas o estado de nervosismo para ver Sally que me fazia permanecer em figura de estúpido? A opção que pensara em último lugar parecia mais razoável, pelo que tentei acalmar-me.
- Gárgulas... As estátuas são magníficas e devem ter já perto de cem anos ou mais.
- Explica-me tudo – Implorei ao chegar-me para perto dela, que pareceu não dar conta da minha proximidade. Mas tal não viria a acontecer, pelo menos agora.
Estremeci quando ela pegou na mochila e sem eu contar se dirigiu depressa demais à porta. Depois saiu.
- Espera, eu...
Deixei a frase a meio, arrumei tudo e corri para ver onde é que ela iria. Mas ela desapareceu, tal como sucedera com Sally. Estaria eu a ficar maluco?
A chuva aumentou de intensidade e ouvi os vidros abanarem com estrondo. As luzes falharam e percebi que se avizinhava uma grande tempestade, ou algo pior. Após tal momento, no exterior da sala, um numeroso grupo de alunos permanecia assustado e colocado junto a uma das salas que davam acesso a um estúdio que poderia albergar cerca de mil alunos. Lá dentro, lembrava-me de como era escuro e assustados, vazio e gelado, mas parecia que eles estariam dispostos a passar por tal provação, a favor de... Claro, só podia ser...
- Rápido, rápido, venham para aqui e não entrem em pânico - Gritava o director da escola com mais dois ajudantes, que desconhecia, a tentarem todos evacuar o recinto. - Vai passar por aqui um pequeno tornado e eu não quero perder tempo com pessoal perdido. Venham, venham.
No mesmo instante, a imagem de Sally surgiu na minha cabeça e receei o pior. O meu coração batia mais depressa do que eu conseguia controlar, e a minha respiração ficou demasiado ofegante.
Comecei a suar e via tudo à roda. Não podia ser. Sally estava em perigo, lá fora ou em algum lugar que não sabia.
Limitei-me a não pensar e pressionei as têmporas para poder surgir algo com clareza, o que parecia ser uma missão impossível. Estava assustado, em estado de choque com a ideia de ela poder estar mal, ferida ou desaparecida. Então desatei a correr e passei pelos três responsáveis quando um grupo passava, e assim ninguém me viu quando me baixei no momento em que todos gritavam histericamente por causa de um trovão.
Sabia que o tempo estava a passar e a cada momento podia ser a minha responsabilidade de não ter ido ter com Sally, a pô-la numa situação perigosa.
- Sally! Sally, onde estás?
Reparei que seria escusado chamar por mais alto que fosse, com toda a chuva e o vento a fazerem barulho. O meu chamamento seria apenas um murmúrio no meio daquilo.
Nunca a iria encontrar e os meus pensamentos lembraram a primeira vez em que a vira, sublime e bela.
- Sou fraco – Pensei para mim. - Mas eu não posso desistir. Ela precisa de mim...
A chuva era tão forte que me deixei derrotar pelo cansaço e pela falta de ar.
Deitei-me junto ao portão da entrada, fechado e comecei a perder a respiração, com o vento a fustigar-me a garganta e as narinas. Onde poderia ela estar? Seria eu tão fraco para não conseguir salvar nenhum de nós?
Então, lá ao longe, uma sombra aproximou-se...

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